Localizado no bairro de Manhattan em Nova Iorque desde 1884, e transformado em hotel em 1905, o Chelsea funcionava tanto como casa permanente como provisória para todo o tipo de pessoa relacionada às artes: modelos, escritores, atores, músicos, artistas visuais, fotógrafos, dançarinos. Não era obrigatório trabalhar com arte para se hospedar no Chelsea, mas acontece que o gerente e sócio do hotel David Bard acreditava no talento dos artistas, e quando estes não tinham dinheiro para pagar o aluguel, ele ficava com suas obras como garantia de empréstimo ou lhes oferecia algum trabalho no Hotel. Isso tornou o Chelsea uma grande casa de artistas.

Robert Mapplethorpe e Patti Smith

No livro de Patti Smith, ‘Só Garotos‘, ela conta que morar em um pequeno quarto do Chelsea Hotel no final dos anos 60 custava mais barato que alugar um apartamento. Além disso, as chances de conhecer pessoas criativas e influentes eram altas. Foi depois de ficarem lá por um tempo que ela e seu melhor amigo e ex amante Robert Mapplethorpe tiveram seus trabalhos reconhecidos.

Andy Warhol fez alguns filmes no Chelsea, além disso, artistas como Bob Dylan, Joni Mitchell, Nico, Jefferson Airplane, entre outros, escreveram músicas sobre o Hotel. A fama fez com que pessoas fossem ao Chelsea apenas pela reputação do lugar, o que acabou deixando o preço da hospedagem elevado. O hotel se tornou um ponto turístico, onde as pessoas vão pelas histórias que aconteceram principalmente nos anos 60 e 70.

O antigo salão de entrada

Vários escritores da geração beat passaram pelo hotel, dentre estes os meus preferidos são Allen Ginsberg, autor do poema ‘Uivo’, e William Burroughs, que fez sucesso com o livro ‘Almoço Nu’ (Jack Kerouac também esteve no Chelsea, mas devo admitir que o livro ‘On The Road’ não captou minha atenção, talvez eu devesse lhe dar mais uma chance algum dia). Bard, o gerente, sabia que eles usavam diversas drogas, mas não se importava, todos tinham o direito de fazer o que quisessem desde que não destruíssem o Hotel.

Em 1964 Stanley Kubrick convidou Athur Clarke para escrever um filme. Eles se encontraram em Nova Iorque mas Clarke não conseguiu trabalhar no mesmo ambiente que Kubrick, então usou o Chelsea como refúgio. Ali escreveu toda a história do filme ‘2001: Uma odisseia no espaço’.

Bob Dylan e Allen Ginsberg
Bob Dylan e Allen Ginsberg

No ano seguinte, em 1965, Bob Dylan teve um caso com Edie Sedgwick, uma modelo e atriz descoberta por Andy Warhol, que morava no Chelsea. Edie se apaixonou por Dylan mas naquele mesmo ano ele escolheu se casar com Sara Lownds em uma cerimônia secreta. Depois do casamento, eles foram morar no quarto #211, e ali Bob Dylan escreveu o álbum ‘Blonde on Blonde’, com algumas de suas melhores músicas: ‘Visions of Johanna’ e ‘Sad Eyed Lady of the Lowlands’.

Janis Joplin

Janis Joplin ficou hospedada no Chelsea diversas vezes, uma delas durante uma turnê com a banda Big Brother and The Holding Company em 1968. Nessa época rolou um encontro no elevador com o artista Leonard Cohen que resultou em um breve romance e uma música chamada ‘Chelsea Hotel#2’.

Sid Vicious e Nancy Spungen

Muitas pessoas já morreram ou se suicidaram no Hotel, mas a morte de Nancy Spungen é a mais comentada. Nancy era a namorada de Sid Vicious, vocalista da banda Sex Pistols. Eles estavam vivendo no quarto #100 do Chelsea em 1978 após o término da banda, quando ela foi encontrada morta com uma faca na barriga. A polícia tomou Sid como único suspeito, por mais que ele alegasse inocência. Quatro meses depois e antes de ser julgado, ele morreu por overdose de heroína. Nas suas últimas entrevistas era perfeitamente visível o enfraquecimento físico e mental causado pelas drogas. Stanley Bard disse em um entrevista que os dois planejaram se suicidar juntos, mas Sid não teve coragem de ir até o fim, um tempo depois ele tentou se hospedar novamente no Chelsea mas Stanley não permitiu pois sabia que ele iria tirar sua vida ali.

 

Dee Dee Ramone

Dee Dee Ramone foi outro punk que morreu de overdose. Sua morte aconteceu em 2002, um ano antes, em 2001 ele lançou o livro ‘Chelsea Horror Hotel’ baseado em fatos reais, mas com muita ficção adicionada. Em 1998 ele havia sofrido uma overdose no Chelsea, e no livro ele retrata como se tivesse morrido naquele instante e sentido a presença de demônios pairando sobre seu corpo.

Ethan Hawke

Em 2001 Ethan Hawke dirigiu o filme ‘Chelsea Walls’, ‘Dramas e Sonhos’ em português, sobre cinco artistas morando no Chelsea Hotel. Em 2004 Ethan se divorciou da atriz Uma Thurman, e quando Stanley Bard soube, ligou para o ator lhe convidando para para passar mês no hotel, que aceitou e acabou vivendo lá por alguns anos.

Salão de entrada antes da reforma

Nos anos 70 David Bard havia passado a gerência para seu filho Stanley Bard. Infelizmente, em 2007 os outros sócios o demitiram pois acharam que o negócio não estava dando tanto lucro quanto deveria. Em 2011 venderam o Chelsea por 80 milhões de dólares, e a partir de então foi instaurada uma política de que novos hóspedes poderiam permanecer por no máximo 24 dias. Dos 300 apartamentos do hotel, 70 estavam sendo ocupados por residentes permanentes. Os moradores antigos eram a alma do lugar, mas não davam lucro pois por causa de uma lei estadual não podiam ser despejados, então alguns continuavam pagando o mesmo preço de aluguel há muitos anos.

Apartamento do escritor Ed Hamilton

Os novos donos quiseram fazer uma grande renovação, o que casou uma longa briga com os moradores que não queriam sair dali. Algumas pessoas desistiram e outras vão continuar morando no Hotel depois da reforma. Fazem alguns anos que o Hotel está fechado, pode ser que reabra em 2017 mas com certeza não será o mesmo Chelsea que fez sucesso como o refúgio da boemia de Nova Iorque.

Encontrei esse documentário em que Stanley Bard e alguns moradores falam sobre o Hotel. Infelizmente está disponível somente com áudio em inglês e legendas em sueco. 

 

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6 Comments on Chelsea Hotel: o ponto de encontro da boemia americana no século XX

  1. Conhecia o Chelsea pela música do Cohen e pelas histórias envolvendo os Sex Pistols também, mas não tinha ideia o tanto de gente e de coisas que haviam acontecido nele. Incrível! Espero que reabra um dia, nem que seja para memorial ou museu (aliás, poderiam lucrar com isso né?!). Parabéns pelo post <3

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